quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O dia em que o frevo calou em Nazaré da Mata

Este ano, a praça está sem frevo nas prévias de carnaval. No lugar do ritmo, um silêncio incômodo. Pela primeira vez em 130 anos, a Sociedade Musical Euterpina Juvenil Nazarena, mais conhecida como Capa Bode, não se apresentará em Nazaré da Mata, terra onde surgiu, na Zona da Mata Norte pernambucana. A decisão não tem volta. Quem garante é o presidente e maestro da Sociedade, João Paulo Ferreira da Hora, também conhecido como maestro Minuto. Os ensaios para o carnaval já deveriam ter começado desde dezembro do ano passado, na sede da Capa Bode, na Praça Herculano Bandeira ou Praça do Frevo. Nesses dias, o logradouro se enchia de gente ávida para escutar o ritmo. As razões para a pausa passam pela dificuldade no pagamento do cachê dos músicos. A Capa Bode é Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco.

Segundo o maestro Minuto, a última parcela do pagamento devido pela prefeitura municipal referente ao carnaval do ano passado ainda está pendente, no valor de R$ 700. O repasse, disse o músico, aconteceu em 12 vezes. “A situação provocou muito mal estar com os integrantes da banda. Recebi muita pressão e precisei de atendimento médico. Não quero passar por isso de novo. Havia uma promessa de que o pagamento seria à vista”, criticou Minuto. Após anunciar a decisão a cerca de 40 músicos, Minuto disse ter liberado os profissionais para formarem uma banda para tocarem no carnaval do município ou mesmo com outros artistas.

A decisão também foi anunciada na página do Facebook da Capa Bode, na última sexta-feira, acompanhada de um esclarecimento: “Chegou ao nosso conhecimento que uma liderança política da cidade falou que a Capa Bode não fez a inscrição na Fundarpe e Empetur e, devido a isso, não estaria habilitada a tocar no carnaval de Nazaré. Isso não procede, pois a Capa Bode, assim como qualquer outro Patrimônio Vivo de Pernambuco, são automaticamente habilitados. Se falaram isso, é para mascarar o verdadeiro motivo de não tocarmos”, diz a nota.

A Sociedade passou a ser conhecida como Capa Bode por conta de um antigo costume dos músicos, ainda no século 18. Todo dia 1º de janeiro eles comemoravam o aniversário da banda com um bode castrado assado ou guisado. “Como todo mundo se conhecia, as pessoas diziam quando eles passavam para comemorar: ‘Lá vão os capabodes”, conta Minuto. O nome passou de geração em geração, mas o costume de se alimentar com o bode parece ter ficado para trás, como garante o maestro. A banda tem uma orquestra de frevo de palco e de cortejo de rua, além de um quinteto de instrumentistas. O músico mais novo hoje tem 10 anos e o mais velho é Pelé, com 73 anos.

Enquanto a centenária Sociedade dá uma triste pausa nas apresentações em Nazaré, sua concorrente, a Sociedade Musical 5 de Novembro, conhecida como Revoltosa, garante levar o frevo para os moradores e turistas do município. Severino Belarmino da Silva, presidente da Revoltosa, disse que começou os ensaios na semana passada, na sede da banda, na Praça Carlos Gomes. “Realmente, passamos por problemas no pagamento dos cachês. A prefeitura fracionou e criou insatisfação, mas a Fundarpe também só nos pagou o carnaval em agosto do ano passado”, queixou-se Severino. Segundo ele, a secretaria municipal está viabilizando as apresentações deste ano.

A Revoltosa tem 103 anos, também tem duas orquestras e é uma dissidência da Capa Bode. O nome oficial surgiu porque a primeira apresentação dos músicos foi em 5 de novembro, em Upatininga, distrito de Aliança. Quem emprestou os instrumentos na época foi o padre Marinho. Em troca, o religioso pediu para eles tocarem na festa do padroeiro do distrito, em janeiro. Severino lamentou a decisão da concorrente ficar de fora do carnaval deste ano. “Isso não é bom para ninguém, inclusive para a cidade e para a nossa instituição. Não deixa de ser uma perda, mas ele tem os motivos dele.” E toda vez que uma banda centenária se cala, quem perde é a cultura pernambucana.

*Diario de Pernambuco/ Marcionila Teixeira

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